Entrevista com a banda Base por Denise Duarte

São Rock Entrevista
por Denise Duarte

Gravação do vídeo da música A vida é um jogo

1. Como vocês se conheceram, e de que maneira decidiram formar a Base? De onde surgiu a idéia do nome da banda? Conte um pouco dessa história.

Tudo começou por volta de 2001, quando eu e uma amiga - Deborah Babilônia - formamos, com amigos, uma banda cover do Hole. Ela no vocal, e eu na guitarra. Assim que a gente começou a fazer alguns shows eu já pensava em escrever minhas próprias músicas. Acabei escrevendo umas três, e gravei uma demo. E, com o nome Janice Doll, tentei levar para frente a banda. Mas não deu muito certo. No fim, mostrei a demo para o Leo Krieger, que, se não me engano, era namorado da Deborah nesta época, Foi quando tudo começou. Com a Janice Doll, acabei indo para o vocal, com o Leo Krieger nos baixos e um amigo do Leo, o Francisco Vasconcelos, nas guitarras. A gente testou vários bateristas, até que o Fábio Krieger, irmão do Leo, entrou, e as coisas começaram a realmente funcionar.

Nós todos morávamos em Brasília, mas, cantando em inglês, o sonho era ir para o exterior.

Com a Janice Doll, gravamos o primeiro disco, o Silent Seasons, em 2007, com o Guilherme Negrão, no Blue Records. Em 2008, a gente conseguiu fechar com um empresário australiano, o Mike Puskas, que nos apresentou o produtor musical Stuart Epps. O cara trabalhou com muito artista foda. Fortalecendo nosso sonho, resolvemos gravar na Inglaterra o segundo disco. Mas o destino não foi muito legal e, em uma época de perseguição a potenciais imigrantes, o visto da banda foi negado na entrada da Inglaterra. A galera acabou voltando de mãos vazias, sem sequer entrar no país.

Porém, o Stuart acabou voltando conosco para Brasília e gravamos os instrumentais no estúdio do Philippe Seabra (vocalista e guitarrista do Plebe Rude). Depois eu voltei com o Stuart para a Inglaterra, onde fechei as vozes. Assim, lançamos o Leave the future behind, em 2008. Com um repertório de 20 músicas, tocamos em muitos lugares legais. Inclusive no Porão do Rock, um dos maiores festivais de Brasília.

Infelizmente, cantando em inglês e com o sonho interrompido, as coisas foram esfriando com a Janice Doll. Oficialmente, nem acabamos com a banda, mas o último show aconteceu no Festival Rolla Pedra, de 2012, já sem a presença do Francisco. Eu tentei levantar a cabeça e resgatar a banda com algumas músicas em português; fiz umas gravações em casa. Tivemos alguns ensaios, mas o pessoal estava desanimado demais. Em 2013, houve uma reviravolta na minha na vida e, com aquela história de que precisava ganhar dinheiro, acabei indo para os EUA, depois para a Inglaterra.

Após um vazio de três anos na música, morando em Londres, algo me dizia que eu precisava fechar o disco em português que havia começado em 2013. E, conversando com Ian Bemolator, um amigo que tinha dado aula de guitarra na mesma escola em que o Leo Krieger dava aula de baixo, a GTR Instituto de Guitarra, decidimos tentar trabalhar via Internet (o Ian tinha se casado com uma polonesa e se mudado para a Polônia).

O cara é um guitarrista muito foda, e acabou que deu muito certo. Pegamos as músicas que eu havia feito até aquele momento, e eu comecei a compor coisas novas. Nos “encontrávamos” umas duas vezes por semana por Skype. Isso começou a ficar bem sério em dezembro de 2016, quando a gente marcou a nossa ida a Brasília, e as gravações do disco para as férias de julho de 2017, novamente no Blue Records, com o Negrão.

Em julho de 2017, encontramos o Leo e o Fábio e, com o Guilherme Negrão, a gente fez sete ensaios seguidos, seguidos de gravações ininterruptas. As férias acabaram se transformando em algo absolutamente brutal. Para as gravações dos dois clipes (Herói e A vida é um jogo), em três dias eu dormi três horas, tentando alinhar os planetas. Na madrugada que precedeu a minha volta, eu ainda estava gravando vozes no Blue. Queria ter tido mais tempo, mas no final valeu muito a pena. Conseguimos chegar a um resultado bem satisfatório.

O nome Base acabou surgindo depois de vários outros. Achava que esse seria um nome significativo, porque tudo começa pela base. Com uma boa base e muito esforço, tudo pode dar certo (risos).


2. Sobre o estilo musical da Base, como vocês o definem? Quais são as influências e fontes de inspiração do grupo; o que ouviam e têm ouvido nos últimos tempos? Qual a formação musical de cada integrante?

Nós nos consideramos uma banda de Rock Nacional. Também gosto de dizer que somos de uma nova geração de rock de conteúdo; pelo menos tentamos ser. Eu tento ser muito exigente com as letras, pois acredito que a mensagem é o mais importante de tudo. No meu ponto de vista, o óbvio tira o gosto e as cores das coisas. As pessoas perdem a vontade de ouvir, talvez porque não são instigadas a pensar, a criticar e se impor.

Temos uma influência de bandas como Legião e Barão, além de forte influência de bandas inglesas, como o Muse. Essa questão do instrumental bem feito é muito importante para nós. A banda é muito profissional; eu sou o único que não estudou música de verdade. O pessoal leva muito a sério a música como disciplina. Todos são ou foram professores de música. Eu sou desenvolvedor e engenheiro da computação; além disso tento empreender com minhas startups. O Leo Krieger, além de músico, é professor de história. O Fábio é formado em marketing, e o Ian atua exclusivamente na música.

Eu gosto muito de um rock mais moderno... Placebo, Muse, The Used, além do rock brasileiro dos anos 80, Legião, Cazuza, Engenheiros... Metal e nu-metal também são muito presentes na vida de todos.


3. Seu som tem, de fato, muita afinidade com os grupos de rock dos anos 80. Como se sentem quando comparados a bandas como o Legião Urbana?

Fico muito feliz com a comparação. Acho que é devido ao fato de ser uma época muito criativa, e é isso o que estamos tentando resgatar. Então a comparação é legal, pois mostra que provavelmente estamos no caminho certo. Renato Russo, no meu ponto de vista, é um dos maiores compositores, junto com Cazuza. Eles realmente são os grandes ídolos do Brasil; não é atoa que muita, mas muita gente ainda escuta suas músicas. É muito desafiador para os novos compositores, pois para quem está começando a escrever o negócio já começa num nível altíssimo.


4. Por quê escolheram o rock? Qual a visão do quarteto sobre este gênero musical nos tempos atuais, tanto no cenário nacional como no internacional? O que teriam a dizer sobre o seu futuro?

Rock transcende o estilo musical: é um estilo de vida. Acho que depois que entra no seu sistema, você fica mais criterioso. Eu amo música brasileira, Elis Regina, Lenine, entre outros grandes nomes. Mas amo o rock, a energia, o grito, e isso resume meu trabalho.

No meu ponto de vista, essa falta de interesse e de espaço para as bandas novas de rock começa (mas não se limita a isso)  pela ausência, por parte das bandas e seus produtores, de um esforço mais direcionado para o lado criativo, algo que envolva muita energia e profundidade. Tem banda com muita energia mas falta conteúdo. Tem banda com conteúdo mas falta energia. Aí, quando uma banda encontra os dois, energia e conteúdo, falta grana, falta tempo, falta visibilidade... e acaba que tudo se torna um ciclo vicioso.

O resgate ao rock virá quando alguém conseguir juntar energia, conteúdo e dinheiro. No caso do último, é o combustível para muitas ações, como divulgação e viagens - e é aí que as portas começam a se abrir. Hoje quase nada funciona sem dinheiro.


5. Suas letras sugerem uma descrença e, ao mesmo tempo, um desejo feroz de mudança, e soam como o desabafo entrecortado de alguém que está querendo gritar mas não diz explicitamente o que anda acontecendo. É proposital? Fale um pouco sobre o seu processo de composição.

Sempre dedico muito tempo às letras. Já me aconteceu de trabalhar por mais de 8 horas seguidas sem que saísse nada de bom. Para algumas músicas, fiquei mais de três meses tentando chegar aonde eu queria. No geral, é um processo muito difícil. Tento conseguir chegar em letras que darão ao ouvinte a chance de ter as suas próprias interpretações daquilo que se queria dizer. E é claro que o que acontece hoje no Brasil me afeta profundamente e, consequentemente, o que escrevo. Infelizmente, estamos passando por uma fase muito difícil no país; por isso não há como não ter certa carga de crítica política e social nas letras, e acaba que tudo isso vira tema. Mas muitas vezes eu tento colocar as coisas de forma mais sutil.

A gente sonha com um Brasil melhor. Existe muita oportunidade, mas é tudo meio que mal explorado, ou explorado com muito egoísmo ou mesquinharia. O Brasil é, verdadeiramente, um país rico, e não somente no que diz respeito a finanças. Como nação, temos de tudo aquilo que se precisa. Acho que é hora de deixar de ser uma nação que aceita os absurdos que lhe são impostos. É cada coisa bizarra que vem acontecendo… e, infelizmente, o brasileiro se acostumou com tantas barbáries! Quando ouço que, em 2017, quase 120 policiais já morreram no Rio até agora, eu fico muito assustado. Porque, a cada novo policial morto, a coisa parece ser tratada meramente como estatística. Nem vou falar do número de mortes violentas que parecem números de guerra.

Morando fora, é difícil não comparar as coisas. Sempre que a gente parar para fazer comparações vai ver o absurdo do contexto no qual o brasileiro está inserido.

É meio irônico, mas passei anos cantando em inglês querendo sair do Brasil. Hoje canto em português e tento o sonho de voltar ao Brasil.


6. Neste horizonte político de tensão e incerteza os quatro integrantes da Base comungam de ideias semelhantes, no tocante às questões que tanto inquietam a nação? Morando em Londres, você consegue acompanhar satisfatoriamente o que se passa aqui?

Acho que a nossa bandeira é a do bom senso. Não é uma questão de direita ou esquerda. Se houvesse bom senso nas decisões de nossos governantes, viveríamos em um país diferente. Essa bipolaridade foi feita para enfraquecer o brasileiro e perpetuar essa gente no poder. Acho que eles ficaram muito tempo na brincadeira das cadeiras. Mas eu tento pensar de maneira positiva. O que eu particularmente acredito é que o Brasil vai passar por uma depuração a partir do enfraquecimento dessas pessoas, como consequência dessa briga toda pelo poder, e isso será muito bom para o país.

Com bom senso, o Brasil seria melhor e, desta forma, ninguém precisaria ir para fora. As riquezas e intelectos poderiam beneficiar o desenvolvimento nacional. Infelizmente, tudo vem caminhando no sentido contrário.

Quando estou no Brasil, praticamente não acompanho jornal. Aqui, leio todos os dias as notícias sobre o país. Falo com meus amigos e família; é uma pena o que está rolando por aí.


7. Falemos, agora, sobre “A vida é um jogo”. É possível resumir o significado e a proposta deste trabalho inaugural?

Acho que é um disco que passa por diferentes momentos da minha perspectiva em relação ao Brasil e à vida. Foram composições que tiveram início em 2013 e finalização em 2017. Então, eu morava num Brasil em ascensão econômica, e de repente tudo desandou. Parece que tivemos muito tempo para compor o disco, mas a verdade é que a maior parte do trabalho se concentrou de janeiro a junho de 2017. Viver esses momentos diferentes contribuiu para o resultado final.

Para mim, o grande significado do disco está no fato de ele contar momentos que marcaram a minha vida, e acho que as pessoas conseguem se ver nessas crises, angústias e preocupações. Muita gente vive coisas parecidas. Conseguir gravar esse disco já foi uma vitória; acho que muita gente já teria desistido da música. Mas o mais engraçado é que o que parecia mais difícil na verdade acabou sendo o mais fácil. A luta agora é para divulgar, compartilhar nosso pensamento, mostrar para as pessoas que a gente existe e luta demais pelo rock.


8. De que maneira está sendo feita a divulgação do disco; quais os maiores desafios de distribuição e divulgação? Dadas as distâncias geográficas, uma vez que os integrantes da Base residem em países diferentes, como fazem para conciliar as agendas?

Nós vivemos em um mar de informação. Acho que o mais difícil é conseguir a atenção das pessoas. Existe muita distração, muita coisa boa ou ruim brigando pela atenção das pessoas. Então, mostrar a elas que você está lutando por algo diferente é o maior desafio. Mas, à medida que o tempo passa e as pessoas vão conhecendo, a gente fica bem feliz. Acabamos de lançar o disco e a banda. Acabamos de tirar o negócio do chão, e a nossa gasolina é justamente o envolvimento das pessoas neste trabalho. Se tudo der certo, gostaria de gravar um acústico dessas músicas, incluindo outras que ficaram de fora do primeiro disco. Como as músicas foram escritas no violão e voz, algo mais intimista, acho que um acústico seria nosso próximo passo.

Conciliar as agendas será o nosso grande obstáculo. Mas penso que o que agora nos desfavorece é justamente o que vai nos fortalecer. Quero viajar para o Brasil mais frequentemente e fazer vários shows em um intervalo curto de tempo. As coisas vão caminhar assim até - quem sabe - a gente poder se dedicar mais exclusivamente à Base. Aí, talvez eu possa voltar em definitivo para Brasília.


9. E a cidade de Brasília? O que representa para os quatro brasilienses da Base? Seria uma musa? Ou fonte de controvérsias? Você e Ian, que moram fora atualmente, sentem falta da cidade? Sentem falta do Brasil?

Brasília é linda, amo de paixão. O céu é lindo, tem espaço, verde, parques. É uma cidade realmente incrível que inspirou e ainda inspira o rock. O problema é que Brasília é uma ilha, não reflete a real situação do Brasil. Espero que o Brasil se livre da corrupção, pois isso nos torna um país doente. Espero que o Brasil inicie a sua remissão.


10. Para finalizar a entrevista, separei os versos de Perfeição: “O progresso não nos deixa atalhos| E o futuro encontra fila| O tempo enferruja os sonhos| E o que falta é coragem?| Será?”. É possível responder a essa questão que você mesmo levanta, com base em suas crenças?

Acho que o mais interessante deste refrão é que ele expressa exatamente o que eu estava sentindo, utilizando poucas palavras mas com frases mais marcantes. E o melhor é que no final ele não conta somente a minha história. Acredito que pouca gente não se identificaria com o que está sendo dito.

Em 2013 eu passei por várias situações de trabalho e de vida, daquelas que nos fazem repensar as coisas. Diante de tanta situação adversa, tanto esforço com pouco resultado, gente tentando te passar a perna, pessoas que você acreditava que eram amigas, qualquer um questiona as coisas como elas são. Acho que eu tive a sorte de conseguir expressar exatamente todo o sentimento neste refrão.

Quando mais o tempo passa, mais gente disputando as coisas com você. Muita gente trabalhando, ganhando muito pouco, e o tempo vai passando e as vezes os sonhos precisam ficar para trás. Muitas vezes não importa o esforço que você faça, o empenho e coragem empregados. Às vezes falta dinheiro, falta oportunidade, falta educação. Às vezes não somente falta algo, mas o tempo todo tem gente para te puxar para baixo; para cada um que te ajuda tem cinco mil que te atrapalham. Como o governo, por exemplo, através do excesso de impostos contra empresas que estão começando.

Tem os que falam que basta você se esforçar que você vai conseguir. Às vezes quem fala é quem já conseguiu. Eu acho muito fácil falar, mas será que para se alcançar algo basta esforço e coragem?

Muito obrigado pela oportunidade da entrevista. Vamos em frente pois o mundo não para.